Arrependimento, viagem no tempo, contra-factualidade e multiverso

“Arrependimento faz sentido?” Essa foi a pergunta que brotou na minha cabeça lá pelas 4:00. Na verdade, essa foi a pergunta final. A primeira pergunta foi: “Existe algo como arrependimento de verdade?”

E por que arrependimento pareceu algo sem sentido para a minha mente que acabara de acordar do nada as quatro da manhã? Talvez porque eu ainda estava bêbado de sono e não conseguia pensar direito? Talvez eu ainda estivesse na terra dos sonhos, onde coisas não fazem sentido e lógica não é uma necessidade? Ou será que é porque arrependimento realmente não faça sentido?

Facepalm statue regrets having seeing what he did

Um pouco de todos, eu diria. Mas para continuar com essa digressão, um pouco de pesquisa foi necessário e uma pesquisa eu fiz. Para início de conversa, o que exatamente é “arrepender”?

“Arrepender”, de acordo com o Dicionário Online de Português significa: “1. Ter mágoa ou pesar dos erros ou faltas cometidas. 2 Mudar de opinião, parecer ou propósito. (Muito excepcionalmente é este verbo empregado como intransitivo.)” (sic). Já o substantivo “arrependimento” significa: “Ação ou efeito de arrepender-se. Remorso ou mágoa por se ter cometido um mal; contrição: era o arrependimento por ter cometido aquele crime que o atormentava. Ação de mudar de opinião ou de comportamento em relação ao que já aconteceu: o arrependimento de não ter viajado.”

Em outras palavras, é um sentimento negativo causado por um evento passado. Se você escolheu comer macarrão ao invés de lasanha, você pode se arrepender por ter escolhido macarrão. Se você não comeu nem lasanha e nem macarrão, você pode se arrepender por não ter comido. Inação também é uma escolha.

Mas arrependimento é só isso? Quando você se arrepende, você realmente sente apenas uma mágoa, remorso ou pesar? Você não sente culpa? Você não sente uma dor psicológica (ou remorso, pesar, etc. são dores psicológicas?)? Mais importante, arrependimento também inclui a dúvida sobre como teria sido caso você tivesse escolhido a outra opção? Ele inclui o sentimento de que a outra opção seria melhor?

Se o arrependimento incluir os dois últimos itens da lista, então eu digo que arrependimento não faz muito sentido.
No dicionário que consultei, o desejo de que tivesse sido diferente ou a imaginação sobre como poderia ter sido diferente não estão inclusos. Se olharmos outros dicionários, o Aulete inclui a preferência por não ter feito algo, ou ter agido diferentemente. Outros dicionários, como o Michaelis, o Aurélio (único nome próprio do português que contém as 5 vogais sem repetição? Gouveia é sobrenome?) e outros, seguem a linha do dicionário online e apenas citam o sentimento negativo.

Então, qual a definição correta? Ou talvez seja melhor perguntar, qual definição é melhor? Para ser honesto, eu não faço nem idéia de qual é a correta ou a melhor, mas se eu tivesse que escolher, eu diria que o desejo de ter feito diferente faz parte do arrependimento. Mas incluíndo, eu também acho que a idéia de arrependimento se torna mais sem sentido. Por que?

A razão é bem simples. Você não tem como saber, com certeza, qual seria o resultado das outras escolhas. Você não as escolheu, portanto não existe um meio de saber como teria sido. Por exemplo, se alguém diz “Eu me arrependo de ter feito X” ou “Eu me arrependo de não ter feito Y”, o que isso realmente significa? Por acaso está implícito o mais provável complemento “Eu queria que eu não tivesse feito X” ou “Eu queria que eu tivesse feito Y”? Se sim, a pessoa que está arrependida sabe que a outra opção levaria a um resultado minimamente melhor do que a que ela se encontra agora? Eu digo que não. A pessoa não sabe, simplesmente porque não há como saber. A não ser que você acredite na teoria do multiverso e acredite que seja possível viajar entre os diversos universos de alguma maneira. Caso contrário, não há como saber. Ok, você pode argumenta que é possível caso você acredite que seja possível viajar para qualquer ponto do tempo, mas essa viagem no tempo deve ser realizada nos moldes mostrados nos filmes da série “Efeito Borboleta” ao invés do mostrado na trilogia “De volta para o futuro”. Em outras palavras, você precisaria “possuir” o seu corpo no passado, mantendo, de alguma forma, os conhecimentos que você tem (ou terá?) no futuro. Consegue ver como isso não faz muito sentido, certo? Se você fosse construir uma máquina do tempo, você voltaria para algum ponto do passado, mas existirão dois de você e mesmo que você mude algo, você acabaria criando uma nova linha do tempo, fazendo com que seja impossível você retornar à sua linha do tempo original ou, talvez, visitar a linha do tempo que você criou. Ou talvez você seja adepto da teoria que diz que o paradoxo do avô pode ser resolvido por uma máquina do tempo quântica?

Independente, nenhuma dessas possibilidades é real no momento então não há um meio concreto de sabermos se a outra opção teria sido melhor ou não. E mesmo que fôssemos capazes de prever o resultado da outra opção, como iríamos comparar o grau de satisfação que cada opção resulta?

Em outras palavras, se o arrependimento também inclui comparação, então não faz muito sentido. Não podemos comparar o conhecido com o desconhecido. Você consegue comparar uma laranja que você comprou no mercado da esquina com uma laranja que alguém está vendendo em uma esquina no meio de um mercado de rua, escondido nas profundezas de uma cidade construína na longínqua KELT-2Ab (um dos dois exoplanetas encontrado pelo telescópio KELT)?

Não, você não consegue. Não há como saber qual o gosto da laranja de KELT-2Ab (nem se ela existe de fato….provavelmente não, infelizmente). O que você pode fazer é acreditar que um é melhor do que o outro. Então quando alguém deseja pelo resultado da outra opção, esse desejo é baseado simplesmente na crença de que aquele resultado seria melhor do que o resultado presente.

E como essa crença é formada? Bem, arrependimento é baseado no raciocínio contra-factual. De forma simples, é o raciocínio contrário aos fatos. Pode ser entendido como o pensamento sobre situações hipotéticas que poderiam ter acontecido. “Se eu tivesse…” e “E se eu tivesse….” são dois grandes exemplos de como o raciocínio contra-factual começa. “Se eu tivesse optado por não fazer X”, “E se eu tivesse escolhido fazer Y?” Continue esses pensamentos e você estará pensando contra-factualmente. É o ato de pensar sobre uma sequência de eventos diferente da que aconteceu de fato e as suas consequências. Alguns raciocínios contra-factuais são mais fáceis de serem feitos (“Se eu não tivesse comprado esse salgadinho eu teria dinheiro para o ônibus”), enquanto outros são mais complicados por causa da cadeia de eventos bem mais longa e ramificada (“Se Henry Tandey tivesse atirado naquele soldado, a Segunda Guerra Mundial poderia ter sido evitada e o mundo seria um lugar bem melhor….ou não?”)

Enfim, fazendo isso você cria uma possibilidade diferente dentro da sua imaginação. E por que você acreditaria nessa possibilidade alternativa? Talvez porque ela é melhor do que a sua situação atual (por que alguém se arrependeria de não ter escolhido a opção que levaria ao pior resultado?) ou talvez porque por essa possibilidade alternativa ter sido criada dentro da sua mente, ela é resultado basicamente do seu próprio esforço, utilizando apenas as ferramentas que você tem disponível (que são seu próprio conhecimento e experiência), então é possível que você esteja sendo afetado pelo “Efeito IKEA“, fazendo com que você aprecie mais o resultado do seu trabalho?

E você consegue comparar o conhecido com o que você acredita que seria o conhecido? Bem….é uma pergunta difícil, mas eu diria que sim. Quão real é o produto da sua imaginação? Quão real é a realidade alternativa que você criou na sua mente a partir de uma única escolha diferente do passado? Você consegue sentir essa realidade da mesma forma que você sente a realidade na qual vive? Talvez sim! Já que a maioria dos sentimentos e sensações são processadas no cérebro, por que a sua imaginação não seria capaz de acionar as regiões do seu cérebro responsáveis para isso? Com já dizia Pablo Picasso: “Tudo o que você imagina é real”. Se é real, pode excitar o seu cérebro e fazer com que ele responda. Essa resposta é o que chamamos de “sentir”. Acho.

Portanto, eu concluiria que sim, você pode comparar o conhecido (sua realidade) com algo que você acredita que seria conhecido, caso você tivesse feito algo diferente no passado (sua realidade contra-factual).

Mas tudo isso seria desnecessário se “arrependimento” não parecesse incluir o “desejo por ter agido diferente” de forma tão natural.

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