Por que celebramos datas “especiais”? (Ou Por que celebramos rótulos?)

Read in English.

Datas especiais! Natal, ano novo, aniversário. Datas especiais, certo? Dia da independência, Dia da padroeira, Páscoa, a lista vai longe. Nós adoramos esses dias. Afinal, são feriados (exceto aniversários, por alguma razão) para que possamos nos reunir e descontrair com amigos e família (exceto para os que precisam trabalhar nesses dia por causa do tipo de emprego). Nós festejamos, nos divertimos, comemos comida boa.

Mas, sinceramente, o que estamos celebrando? Sequer estamos celebrando alguma coisa? Ou é só uma desculpa para festa?

Já ouvi várias e várias vezes que essas datas, especialmente Natal e ano novo, são importantes, quando deveríamos nos reunir com a parte da família que não vemos ao longo do ano e todo esse papo (“É só uma vez por ano, vamos lá!”). Mas mesmo assim, por que tem que ser exatamente nesses dias? Convenção social, acho. O mundo inteiro concorda que esses dois dias todos devemos terminar o expediente mais cedo para que todos possam curtir o dia, facilitando reunir um monte de gente com agendas diferentes, com folgas em dias diferentes. Então, talvez o toque especial desses dias é basicamente a universalização das agenda?

Ah, claro, Natal é o dia que Jesus nasceu, mesmo com estudos mostrando que isso é bem improvável (algo sobre a posição das estrelas e tal). Bem, parece até que a própria bíblia tem evidências de que Jesus não nasceu em dezembro. Mas existem vários outros deuses que nasceram nesse dia. Mas esse não é o ponto.

Também temos o ano novo. O dia que o ano começa. O dia que recomeçamos o ciclo de 365 ciclos menores, que é apenas a soma de ciclos de 24 ciclos ainda menos, que podemos dividir, novamente, em ciclos de 60 duas vezes. Sim, um ano nada mais é do que 365 dias, que nada mais é do que 8760 horas, 525600 minutos, 31536000 segundos, 1536000000 milisegundos e assim por diante. Embora você possa jogar tudo isso fora nos anos bissextos. Na verdade, nada do que eu disse aqui é verdade, mas para simplificar, vamos considerar que um ano é o que eu disse. Mas ei, é o tempo que a Terra demora para completar a órbita em torno do Sol! Só que não. Mesmo assim, isso é motivo de celebração?
“Olha! A Terra completou uma órbita em torno do Sol! Festa!”

Por que não celebramos toda vez que a Lua orbita em torno da Terra? Ou toda vez que a Terra completa uma rotação em torno do seu próprio eixo? Não são fatos igualmente fascinantes? Além disso, o início do ano mudou ao longo da história e civilizações então é um bom indício de que é só um ponto arbitrário. E nada de emocionante acontence no dia primeiro de janeiro (não é nem o periélio, nem solstício, equinócio ou o início de uma estação). Não é nem uma celebração mundial de fato.

Aniversário é outro dia que as pessoas adoram celebrar por algum motivo. “É o seu dia!” “É o seu dia especial!”
Não, não é. Seu aniversário marca um ponto no tempo em que você completou mais 1536000000 milisegundos de vida. Em outras palavras, você sobreviveu outros 1536000000 milisegundos e por isso, FESTA! Hein? Acho que é importante dizer quão arbitrário 1536000000 milisegundos é. Novamente, por que a órbita da Terra em torno do Sol? Por que não a órbita da Lua em torno da Terra? Talvez seja uma herança do geocentrismo?

Aniversário é só um rótulo. Um outro rótulo. Assim como natal, ano novo, segunda-feira, sábado, março ou 1989. Um rótulo arbitrário que as pessoas adoram celebrar. Uma instituição social que encobre algo muito mais importante.

E nós adoramos tanto os rótulos que até pagamos por eles. É isso que o capitalismo está fazendo. Vendendo rótulos. E as pessoas estão comprando. Porque existe uma instituição social permitindo que esses rótulos sejam um fator de diferenciação. Sim, nós adoramos rótulos. Nós queremos rótulos. Nós precisamos de rótulos. Como mais conseguiremos encontrar a nossa própria identidade e nos destacarmos de todo mundo? (Nós realmente queremos nos destacar?)

Mas a culpa não é do capitalismo. Nós amamos rótulos desde muito antes do capitalismo ser alguma coisa.

Tivemos Pepino, o breve. Tivemos Ricardo coração de leão. Tivemos os Cavaleiros que dizen Ni. Para os comuns nós tivemos X o mercador, Y o ferreiro. Um rótulo é importante para deixarmos nossa marca na história.

Nós adoramos tanto os rótulos que nós até brigamos por eles. Nós justificamos nossos atos com eles.
“O rótulo deles é diferente do nosso! Por isso que nós brigamos com eles!”
“O rótulo deles é diferente e por isso eles são inferiores!”
“Eu nunca vi aquele rótulo antes. É melhor evitá-los!”

Ah, humanos, quão adoráveis são vocês.

Quando será que os rótulos passaram a ser mais do que apenas o que a palavra implica? Quando será que as pessoas passaram a brigar por causa deles? É difícil dizer. Talvez quando os humanos passaram a viver em sociedade? Quando a agricultura se desenvolveu e, com ele, o conceito de propriedade privada? Esse seria o meu palpite.

De qualquer forma, eu ainda acho interessante como algumas pessoas gostam de celebrar esses dias porque eles são “especiais”. Eu não faço idéia do que os torna “especiais” além da capacidade de sincronizar agendas (e nem todos conseguem).

Ano novo é só um outro dia da semana. Páscoa é só um domingo como qualquer outro. Aniversário também são dias bem comuns, se quer saber. A natureza faz nada diferente nesses dias. A Terra não dança quando o ano novo chega. Marte não parabeniza a Terra por completar uma órbita. A Lua não dá um tchauzinho nas Páscoas. E o seu aniversário não é “o seu dia especial”. Você não nasce todos os anos. Você só nasce uma vez. E esse dia é o dia mais especial. 365 dias depois do dia que você nasceu é só um outro dia qualquer. O mesmo vale para 730 dias depois.

Então por que as pessoas gostam tanto de celebrar aniversários? Aniversário não são mais especiais do que ontem. Sério, as pessoas deveriam celebrar todos os dias que acordam porque todo dia é especial. Você, e todos os outros seres humanos vivos, são um afronte probabilístico. Você estar vivo já é um milagre. Já parou para pensar qual a probabilidade de você, exatamente como você é, nascer? Zero. Ou bem próximo.

Não é difícil chegar a essa conclusão. Pense na probabilidade de um espermatozóide fertilizar um óvulo. Somente esse fato já nos dá uma probabilidade bem baixa. Lendo de algumas fontes, podemos assumir que em média a ejaculação masculina contém 180 milhões de espermatozóides. Em uma ejaculação. Claro que esse número varia por diversos fatores, mas uma diferença entre 100 milhões e 300 milhões não é tão importante nessa magnitude. Para mulheres, o número de óvulos viáveis também varia, mas podemos assumir em torno de 450. Então nós queremos a probabilidade que aquele esperma fertilizará aquele óvulo. Lembrando que 180 milhões de espermas é o número que encontramos em uma ejaculação. Nós precisamos estimar quantos espermatozóides um homem médio produz. E isso é bem difícil de estimar, mas podemos estimar que é um número bem grande. Talvez chegando na casa dos trilhões? Ou quadrilhões? De qualquer forma, já se transforma em uma change em trilhão ou quadrilhão. Acho que todos concordam que é bem baixo.

Então nós temos que considerar que para você ter nascido, seus pais precisam ter nascido. Mais uma chance em trilhão ou quadrilhão para cada um. E nós temos que considerar a probabilidade deles terem se encontrado, gostado um do outro e mantido uma relação longa o suficiente para decidirem ter filhos. Mas essa probabilidade, comparado com as outras, é negligenciável. Mas temos que considerar a probabilidade dos seus avós terem nascidos. E dos bisavós. E assim por diante. Óbviamente a probabilidade das gerações mais antigas terem nascido é maior porque haviam menos pessoas, naquela época casamentos arranjados era muitos mais comum, as pessoas também tinham mais filhos porque eram eles que cuidavam dos pais na velhice, mas também temos que considerar a probabilidade desses filhos atingirem a idade reprodutiva. Independente, considerando todas as probabilidades, as chances de você ter nascido exatamente como você é é zero. Mas você nasceu! Você e mais outros 7 bilhões de seres humanos, todos com probabilidade próxima de zero de terem nascido do jeito que nasceram e aí estão!

Então não, seu aniversário não é um dia especial. Todo dia que você está vivo é especial. E você sobreviver por mais um dia também é um milagre. O que o seu corpo faz para mantê-lo vivo é fantástico. Especialmente quando você passa dos limites nos “dias especiais”.

Enfim, eu sei que tudo isso é apenas eu sendo ultra-racional, mas ainda me supreende o fato de que nós não podemos tirar o dia de folga no nosso aniversário, mas quase o mundo todo tira folga no suposto aniversário de um cara que nasceu no meio do deserto (ou algo assim, por mais improvável que seja) de acordo com algumas pessoas que dizem estar escrito em algum livro (o que provavelmente é mentira, mas ninguém se importa de ir checar) que foi supostamente escrito por algumas pessoas centenas de anos depois que o dito cujo morreu. Pois é…

Três links extras:
Video sobre ano bissexto do canal CGPGrey, é ótimo para entender porquê 365 dias não é um ano. Video link

Texto do Ali Binazir sobre a probabilidade de você nascer, com um infográfico bem legal. Alguns dados parecem bem aleatórios e inventados mas eu imagino que não sejam estimativas fáceis de se fazer. Blog post

One thought on “Por que celebramos datas “especiais”? (Ou Por que celebramos rótulos?)

  1. Pingback: Why do we celebrate "special" dates? (aka: Why are we celebrating labels?) | Eternal Digression of the Spotted Mind

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *