Sobre torcidas, países, cultura e coisas.

Leia esta digressão em inglês.

A copa do mundo acabou. Um time levou o título, os outros choraram e a vida continua com seus problemas. E em todos os jogos pessoas estavam torcendo. Várias pessoas estavam torcendo. Hordas de pessoas estavam torcendo. Torcendo por um grupo menor de pessoas correndo atrás de uma bola para chutá-la para longe, dentro de uma determinada área protegida por um cara do time oposto.

Bom, não é um problema sobre o que o é esporte em si porque se você pensar de maneira racional, QUALQUER esporte vai parecer tão ridiculamente estúpido que você se perguntará como alguém tem coragem de praticar em público e ainda ganhar a vida com ele. (sério, tente).

O que me faz pensar é a torcida. Mais especificamente, torcer para um time. Por que as pessoas torcem para um time?

O motivo das pessoas torcerem pode não ser totalmente compreendido, mas eu acho que a necessidade de se sentir parte de algo maior e os benefícios sociais que a atividade proporciona são bons motivos. Torcer pode levar a várias interações sociais e pode fazer um se sentir parte de uma comunidade. Dependendo da comunidade e do evento em que as pessoas vão para torcer, as diferenças sociais podem se tornar menos visíveis, além de poder servir como uma forma de provar o seu ponto de vista. Talvez provar que a pessoa está do lado certo, torcendo pelos vencedores. Também existe a empatia que se sente pelos competidores.

Mas mesmo assim torcer para um time nunca fez muito sentido para mim. A razão disso é que a composição de um time não é fixa. Ao contrário de uma pessoa, a formação do time pode mudar de temporada para temporada. Ela pode mudar no meio da temporada. Existem diversos fatores que afetam a composição do time, incluindo a coesão entre os membros, a complementaridade entre eles, a sua saúde e, muito importante, a situação financeira dos times (e talvez o prestígio). Sim, situação financeira dos times e não do time porque um time pode fazer uma oferta melhor por um jogador e, de repente, troca de times! Ah, quão simples não?

Times mudam a composição com o tempo. Um time centenário não é o mesmo hoje em relação a quando nasceu. Os integrantes mudaram completamente. Pode ser que algumas pessoas digam que existe um “núcleo” que sempre existe dentro do time, independente da sua formação, e que é esse núcleo que faz as pessoas continuarem torcendo. Existe algo que define o time e que é independente de quem está no time. Mais ou menos como existe algo que define você como você, independente da sua composição biológica. Algo como uma alma. E é isso que conecta os torcedores ao time.

Mas eu não acredito nisso.

Um time é feito de e por pessoas. Talvez exista um sub-grupo dentre essas pessoas que pregam sobre o que é o núcleo do time, o seu lema, sei lá. Qualquer coisa como “Sempre e para sempre os melhores” ou “Perseverança e trabalho de equipe” ou qualquer frase motivacional genérica. Talvez um time seja conhecido pelo seu clima amigável, ou por sempre competir no limite, ou por sempre perder, tanto faz. Acontence que não há garantia de que gerações futuras do time estarão à altura do lema ou sequer se preocuparão com ele. É possível, sim, mas não há garantias. Depois de algumas gerações, você pode acabar com uma composição que simplesmente não se importa com o lema do time e só quer jogar e ganhar para isso. Depois de algumas gerações, aquele núcleo que definia o time pode ficar tão obscurecido que sequer existe mais.

Seria mais ou menos como dizer que alguém que você conhece mudou? Você sente que a pessoa não é mais a mesma. Talvez um evento traumático mudou a forma como essa pessoa reage e interage com os outros, sei lá. Será que dá para comparar o obscurecimento do núcleo de um time com alguém que “perdeu a alma”? Eu não tenho tanta certeza porque no caso da pessoa, você ainda pode ter certeza da sua identidade. Teste de DNA e impressões digitais são dois métodos. Mas para um time? O nome? O uniforme? O emblema? Essas coisas possuem uma identidade de maneira intrínsica? Talvez em algumas interpretações, mas não da mesma maneira que o DNA carrega a identidade do indivíduo. Com isso eu quero dizer que o emblema é criado para depois se criar a conexão com a identidade enquanto que o DNA em si é o gerador da identidade. A direção de causalidade é invertida. E eu tenho certeza de que times mudam de nome, uniforme e emblemas sem grandes problemas, mas de DNA? Eu sinto muito mas eu acho que isso não é do seu interesse.

Então o que identifica um time? Bem, eu imagino que as pessoas que torcem sequer se preocupam muito com isso. Talvez eles vejam o time como uma caixa-preta. As pessoas pontualizam os times e vêem como uma coisa coesa. Ou quase isso. Um time pode ser visto como uma caixa-preta, embora não seja tão preta quando o nome dá a entender e ela não é igualmente escura para todos. Sua opacidade é relativa. E aqui eu me refiro em termo da teoria ator-rede (TAR). Um time é uma caixa-preta porque existe(m) rede(s) heterogênea(s) encapsuladas que as pessoas não captam completamente. Ou com a qual não se importam, especialmente quando a caixa está funcionando como deveria (para um time significa vencer). Mas essa caixa-preta não é nem preta e nem está fechada. Não é preta porque ela não funciona sempre como deveria e não está fechada porque o seu conteúdo vive mudando. Os atores que compõe a rede mudam. Se os atores mudam, as translações também mudam, mudando a rede e a caixa-preta também. Mas é como se as pessoas não se importassem com como as mudanças dentro da caixa alteram a caixa em si. É como se a caixa não fosse totalmente preta porque as pessoas sabem, até certo ponto, como o time funciona (ou deveria funcionar), mas é opaca o suficiente para que as pessoas não consigam diferenciar (ou consigam ignorar) as diferenças na caixa em si. Eles sabem o que mudou, sabem (ou acha que sabem) se as mudanças foram boas escolhas ou não, mas ainda vêem a caixa-preta (que agora é diferente) como a mesma caixa preta. Ainda é o mesmo ponto que deveria trazer vitórias.

Colocando em termos não sociológicos, para os torcedores, mudar os membros do time não muda o time em si em um termo mais amplo. É como se o time fosse uma entidade por si só e as pessoas torcecem para essa entidade. Mas eu não tenho certeza de que seja assim que funcione. Porque as pessoas ficam bravas quando a estrela do time vai para o time rival. E isso basicamente destrói a ideia da caixa-preta, pontualização ou do “time em um termo mais amplo”. Então, um time é uma caixa-preta e as pessoas torcem para uma caixa-preta?

“Bem”, você diz, “na copa do mundo os times representam países e as pessoas torcem pelo seu próprio país.”

Em outras palavras, nesse caso, a essência do time, o seu núcleo, é a sua nacionalidade. Certo, ok. Parece bom.

Mas o que isso significa? O que é uma nação? Ou um país, que seja. Eu não vou começar uma discussão semântica então eu vou tratar as duas palavras como sinõnimas (e acho que pode incluir Estado Nacional no meio). Existem diversos detalhes e complicações quando tratamos de países em termos legais. Tanto que sequer existe um consenso sobre quantos países há no mundo já que existem países que não são reconhecidos por todos os outros países. Existem várias fontes explicando essas complicações, mas para uma breve exposição de algumas delas, a Inglaterra é um país? E Taiwan? Hong Kong? Porto Rico? Escócia? Bem, nenhum deles é um país. Inglaterra e Escócia podem até ser chamados de país, mas eles são países que fazem parte de outro país, o Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte (que também inclui o País de Gales e, adivinha, a Irlanda do Norte), e eles não são estados soberanos. Pegando do Wikipedia (em inglês), um país se refere a um estado soberano. Um estado soberano é uma entidade juridica não-física do sistema legal internacional que é representado por um governo centralizado que tem autoridade independente suprema sobre uma área geográfica. E os países que formam o Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte não são estados soberanos. Existem também micronações, países que se parecem com países mas que não são países, países que não se parecem com países mas que são países e provavelmente outras possibilidades estranhas, fazendo com que definir o que é um país seja algo muito, muito problemático e algo que você provavelmente não vai querer tentar. Eis um vídeo bacana que explica essa bagunça toda.

De qualquer forma, usar uma definição legal não é o que nós queremos aqui, dado o contexto que estamos tratando, certo? Estamos falando sobre o espírito nacional! Aquela ligação que nos faz ver o vizinho como um igual! Aquele laço que une as pessoas dentro de uma área por um mesmo ideal! Aquele sentimento que só o Blanka consegue representar para o grande Brasil!

O que é essa coisa que une as pessoas de um mesmo país? Cultura? Língua? Aparência? É certo que para países menores pode ser o caso. Um país do tamanho de um estado pode ter uma cultura, linguagem e indivíduos com fenótipos bem homogêneos. Mas para países maiores, principalmente para os continentais como os EUA, China, Brasil e outros, é difícil aceitar isso. Há regionalismo para os três itens. Você pode dizer que a mesma língua é falada em todo o país? Claro que se fala português ao longo do Brasil, mas ele parece a mesma língua em todos os lugares? Sotaques, gírias, regionalismos, cada região tem a sua característica. Algumas coisas são tão únicas que pode soar como uma outra língua para um estrangeiro. O mesmo vale para a cultura e aparência. Então o que mais poderia ser? O fato de que as mesmas leis e instituições legais se aplicam a todos os cidadãos? Bem, isso não é verdade em todos os lugares, principalmente em países corruptos e repletos de impunidade. Talvez seja a comida?

Pensando sobre isso, talvez exista um limite mínimo de proficiência em conhecimento cultural e na língua que a pessoa tenha que mostrar para ser aceito como um cidadão pelos outros cidadãos. Talvez ser legalmente aceito como um cidadão seja um extra, mas não é o fator determinante. Mas isso não explica de fato como alguém de um extremo do país consegue ver outra pessoa do outro extremo como um igual (em termos de nacionalidade). Claro que ambos falarão a mesma língua (espero), embora com sotaques diferentes, e eu acho que conseguirão ter uma conversa normalmente, já que eles sabem que eles falam a mesma língua mas de maneiras diferentes, mas e o conhecimento cultural? Quanto desse conhecimento as pessoas de extremos opostos tem em comum? Quanto da cultura é realmente nacional? E as pessoas de diferentes classes sociais? Uma pessoa da classe média tem o mesmo conhecimento cultural que alguém das classes mais baixas? Bem, talvez um caminho a se seguir seja definir o que é essa cultura da qual falamos.

Vamos definir cultura emprestando a definição da antropologia. Eu não sou antropólogo então não aceitem essa definição como verdadeira para a antropologia, mas eu acho que das diversas definições que se pode encontrar, podemos definí-la como um conjunto de conhecimento comum/compartilhado e o conjunto de comportamentos e interações esperados derivados desse conhecimento. (Para várias definições retiradas de diversos autores, veja este link (em inglês))

Aqueles que compartilham o mesmo conhecimento e se comportam de maneira similar pertencem a uma mesma cultura. Óbviamente existem diversos graus ou camadas. Você tem conhecimento e comportamento que ultrapassam as barreiras nacionais, como o fato de na maioria dos países ocidentais ser compartilhado a ideia de que cachorros são bons companheiros que nós não devemos comer enquanto não tem problema comer carne de vaca. Nós temos conhecimentos e comportamentos que não ultrapassam barreiras nacionais, como o fato de ser normal homens usarem saia na Escócia (é um país ou não?) ou a prática da siesta em alguns países. E nós podemos ir tornando a coisa cada vez mais específica, até chegarmos nas sub-culturas, que são conhecimentos e comportamentos que são restritos a grupos menores de pessoas, com alguns grupos até exigindo que novos entrantes façam testes para provar se são bons ou não (leia-se: profissões). Sim, cada profissão pode ser considerada uma sub-cultura porque cada uma tem seu próprio conjunto de conhecimento compartilhado e, como profissionais, é esperados que eles hajam de acordo com um certo conjunto de regras comportamentais. Isso é mais fácil de ser visualizado entre advogados e médicos, mas ainda é aplicável para outras profissões. E para outros sub-grupos, como a de fãs e fanáticos.

Mas eu não estou aqui para digressionar sobre os diferentes graus ou camadas da cultura e como categorizá-los. O que importa é que provavelmente existe uma camada que abrange um país inteiro. Existe um conjunto de conhecimento compartilhado e padrão de comportamento que de alguma forma é único e que todos os cidadãos do país reconhecem e aceitam como sendo representativo do cidadão comum.

Será? É difícil dizer com confiança. Mas mesmo nesse nosso mundo globalizado onde mais e mais culturas são aceitos e adotados globalmente, países ainda internalizam essa cultura global e a adapta para a sua própria cultura, e adapta a sua própria cultura para ela, mantendo o resultado final único. É assim que corporações que agem como corporações globais funcionam. Pelo menos é assim que elas conseguem vender seus produtos homogêneos em todo o mundo, adaptando, embora o mínimo possível para minimizar o aumento dos custos, fazendo com que sejam mais facilmente aceitos em diferentes culturas.

Então se assumirmos que essa camada de cultura realmente existe, nós resolvemos o problema. Essa camada é a cola que une as pessoas de um mesmo país. Embora essa cola fgrude melhor em algumas pessoas do que em outras, contanto que a cola se espalhe o suficiente no indivíduo para que seja visível por qualquer um, esse indiviíduo será considerado um cidadão do país. Claro que definir exatamente o que faz parte dessa camada cultural é extremamente difícil. É um problema parecido com o de definir um país, mas em uma escala muito maior porque estamos falando de milhares de pessoas, e encontrar qual conjunto de conhecimento e comportamento que é aceito por todos é praticamente impossível. Você tem problemas com flexibilidade, inconsciência sobre a composição da própria cultura, óbviamente a quantidade imensa de pessoas.

[Isso tudo soa como uma solução genérica que na verdade não é uma solução? Sim, soa. Porque é exatamente isso que é. Mas continuemos.]

Uma coisa é certa, cultura pode ser criada, modificada e aprendida, sendo a língua o exemplo mais óbvio.

E se aplicarmos esse conceito de camada de cultura para os times? A coisa que faz com que as pessoas torçam para times diferentes é essa camada de cultura que é diferente para cada time. Essa camda é criada em torno do time e é ensinada para os outros. Aqueles que aceitam e gostam dessa camada irão aderir à cola e se tornarão torcedores. E conforme essa camada fortalece, ela também se desvincilha do time e se torna independente do time e, portanto, de sua composição.

Será? Pode existir algo como uma cultura avulsa? Isso sequer faz sentido? Uma cultura que é capaz de se modificar sem influências externas? Uma cultura que é livre de qualquer produto (seja o produto o seu criador ou a sua criação)? Eu não tenho certeza disso, talvez exista um outro caminho que podemos seguir.

Uma pergunta cuja resposta seria interessante ter é se a tecnologia é um produto da cultura. E eu diria que si, embora seja um produto de uma camada específica. Mas a consequência dessa resposta é importante porque significa que a cultura afeta o produto que ela cria, mas também que os próprios produtos podem afetar a cultura. É uma via de mão-dupla (embora a mobilidade nas duas mãos não seja igual).

Por exemplo, mudanças na cultura afetam a direção do desenvolvimento tecnológico. Conforme as pessoas ficam mais preocupadas com o aquecimento global, o desenvolvimento tecnológico passa a focar mais em opções sustentáveis. Mas o desenvolvimento tecnológico também pode afetar a cultura uma vez que novas tecnologias trazem novos conhecimentos. Pegue o celular como exemplo. Um monte de conhecimento novo foi adquirido com a introdução dos celulares (e com os smartphones depois), que afetaram a forma como as pessoas se comportam, afetando, portanto, a própria cultura.

Com uma via de duas mãos entre a cultura e o(s) produto(s) relacionado(s) faz mais sentido as pessoas serem capazes de torcerem para um time mutável. Uma camada de cultura é criada a partir do time e se espalha, criando o grupo de torcedores. A dupla cultura-produto e a via de mão-dupla entre elas é criada. Agora, mudanças no produto (a composição do time) irá afetar a camada de cultura, embora não vá extinguí-la necessariamente (a não ser que o produto em si seja exstinto). Da mesma forma, mudanças na cultura causam mudanças no time, embora este sentido provavelmente seja menos efetivo do que o outo.

No fim o que existe não é um núcleo com o qual os torcedores se identificam e que se mantém imutável no tempo e espaço. Existe uma camada de cultura que pode mudar junto com as mudanças no time. Esse tipo de resposta resolve o problema que eu tinha com pessoas torcendo para times que vivem mudando, mas ela não explica de maneira satisfatória diversos comportamentos que torcedores apresentam, mas isso fica para outra digressão.

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