Spoilers, estraga-prazeres?

Aviso de spoiler! Spoilers são estraga-prazeres! Será?

Ah, spoilers! Todos nós odiamos, não? Afinal, spoilers são estraga-prazeres! Lá estamos nós, assistindo a um filme, esperando ansiosamente pelo fim quando alguém, do nada, aparece no meio da sessão e diz como o filme termina.
“Ah, eu já vi esse filme! Eu fiquei surpreso quando eles revelaram que todos estão mortos, na verdade!”, alguém diz, e todos os outros arregalam os olhos enquanto um desejo bestial por sangue (um sangue bem específico, na verdade) começa a fervilhar por dentro. A mesma coisa pode acontecer/acontece quando você comenta com alguém que está assistindo a uma série de TV ou lendo um livro e esse alguém, de propósito ou não, conta o final.
“Ah, você está assistindo Lost? Cara, o último episódio foi sensacional/horrível! Quando *bleeeeep* acontece é tão, ops!”
“Ah, você está lendo Harry Potter? Nossa, no último livro, quando o Dumbledore *bleeeeep* é tão, ops!”
Sim, pode acontecer e provavelmente já aconteceu com muitos de nós ao longo de nossas vidas. Algumas vezes nós estamos no lado dos que contam, as vezes estamos no lado do que ouvem.

Mas, sério, spoilers são tão ruim assim? O suficiente para nós guardamos rancor da pessoa que contou? Spoilers realmente afetam o modo como nós aproveitamos uma obra?

Assim, todo mundo sabia que o Titanic is afundar no fim do filme, mas ninguém teve um ataque de fúria por isso. Todo mundo sabe como comédias românticas, filmes de ação, filmes de super-heróis, etc. terminam e, mais ainda, todos sabem o que esperar do desenvolvimento deles na maioria dos casos.

Comédia romântica? Certo! O casal começa junto? Não? Então ou o rapaz ou a garota irá passar o filme inteiro tentando surpreender o outro, passando por situações ridículas para terminar com uma cena cuja legenda “E eles viveram felizes para sempre” encaixa como uma luva.
Se o casal já começa juntos, eles irão passar por situações ridículas ao longo do filme todo, talvez chegando à beira do divórcio, para terminar com uma cena cuja legenda “E eles viveram felizes para sempre” encaixa como uma luva.
Ação? Muita explosão, velocidade e filmagem caótica, só para terminar com o mocinho apreciando o horizonte de uma cidade destruída ou vivendo uma vida calma depois de se aposentar do seu posto de “mocinho”.
E assim por diante.

O final importa tanto? Não, eu acho que não. Mas sejamos justos, spoilers não é apenas sobre o final. Saber que o Titanic afunda é só uma pequena parte do filme. O que nós não sabemos é se o casal vai sobreviver e ficar juntos eternamente. Nós sabemos como comédias românticas terminam, mas nós estamos assistindo pelas situações ridículas. Nós sabemos que os heróis sempre vencem no final, nós estamos assistindo pelo desenvolvimento da história. Certo?

Então o que nós não queremos ouvir são spoilers como o exemplo do Harry Potter, que revela um evento importante do meio do último livro (eu acho, eu não faço idéia de onde acontece) que muda todo o desenvolvimento da história. Spoilers como o do Titanic afundar ou dos heróis vencendo no fim não são tão spoilers assim porque nós “já sabemos”. Eu tenho confiança de que ninguém iria querer me linchar se eu gritasse no começo de um filme do “Superman” que ele salva a cidade/país/mundo no fim do filme (mesmo que, por ventura, isso não aconteça de fato). Porque, bem, esse é o esperado.

Ainda assim minha pergunta permanece, spoilers são tão estraga-prazeres assim? Saber quem é o assassino antes dele ser revelado faz mesmo tanta diferença no quanto nós apreciamos da história? É difícil mensurar, mas eu diria que o que spoilers realmente fazem é mudar como nós apreciamos a história. Eu não vou me preocupar em quantificar “apreço” porque não me parece muito correto. “Eu aprecio 1.42314 vezes mais quando não me contam spoiler do que quando me contam, embora isso também dependa de quantos spoilers me contam e quão longe estou na história. Então a variação poderia ser qualquer coisa entre 0,0034 e 10,4923. Isso se minha matemática estiver correta.”
Não…..não.

Então, como spoilers mudam a forma como apreciamos algo? Mudando nossas expectativas. Quando nós não sabemos o que vai acontecer, nossas expectativas se concentra exatamente nisso, no que vai acontecer. Nós não sabemos quem o assassino é, portanto nós assistimos para descobrir sua identidade. Nós não sabemos quem será o próximo a morrer, então nós assistimos para tentar prever quem irá morrer. Nós não sabemos como o vilão será derrotado, então nós assistimos esperando uma grande batalha.

Se, por outro lado, nós sabemos, nossas expectativas mudam. Quando nós sabemos quem é o assassino, nós tentamos descobrir como é possível encriminá-lo seguindo um caminho oposto de um detetive (ele tem as provas e precisa chegar ao culpado, nós temos o culpado e precisamos encriminá-lo com provas). Nós sabemos quem irá morrer, mas não sabemos como, então nós tentamos prever. Nós sabemos como o vilão será derrotado, mas não sabemos o quão grandioso isso será.

Óbvio que esse tipo de análise é muito mais fácil de ser feita para entretenimento com elementos de mistério e investigação. Se você sabe como a série “Jogos Mortais” termina antes de assistir, você assistirá tentando observar os detalhes que permitem chegar à conclusão. Se você não sabe, há chances de que depois de você terminar de assistir, você irá reconsiderar reassistir a série para fazer exatamente isso. Fazer o papel de “detetive reverso” pode ser divertido também.

Mas e spoiler como o de Harry Potter? Quando algo acontece que pode mudar todo o curso da história? É possível que esse tipo de spoiler também afete apenas a forma como nós apreciamos a história? Eu diria que sim. Você sabe o que acontece, mas talvez não saiba como acontece. Pegue Star Wars como exemplo. Muitos de nós, talvez mesmo sem ter assistido a trilogia original (4º~6º filmes da série), já conhecíamos o famoso “Luke, eu sou seu pai” (“Luke, I’m your father” em inglês, que na verdade nunca foi dito, mas enfim). Nós sabemos quem fala isso para quem e entendemos (mesmo os que não assistiram devem entender um pouco) o contexto. Mas saber apenas que o cara do mal é o pai do cara do bem é o suficiente para estragar a diversão? Talvez o George Lucas tenha pensado que sim, sendo este um dos motivos pelo qual ele apresentou primeiro a segunda trilogia? Porque se ele tivesse lançado primeiro a primeira trilogia, essa cena não teria tido tanto impacto quanto teve (e as pessoas provavelmente não iriam citar e maneira errõnea como fazem, mas enfim).

Mas pense comigo, quando você chega num ponto de spoiler, você começa a pensar sobre a história que já passou e tentar ver como essa revelação afeta a história passada.
“O cara do mal é o pai do cara do bem? Caramba, isso explica muita coisa que aconteceu até agora!”
Talvez o cara do mal não seja realmente do mal e você só descobre isso no fim da história. E isso muda completamente como você vê a história.
“Então ele não fez isso só porque ele era um cara do mal, mas porque ele tinha que fazer para alcançar um objetivo maior? Oh…!”

Mas se nós sabemos de antemão, como nós enxergaríamos? Seria menos interessante? Eu acho que não. Talvez um pouco, já que não teríamos o efeito surpresa, mas talvez a outra coisa que esse conhecimento extra nos provê possa compensar.

E quais é essa coisa? Poder. Como todos sabemos, conhecimento é poder. O fato que nós sabermos nos faz sentir superiores aos personagens.

Quando nós sabemos que o cara do mal não é realmente do mal, que ele só esta fazendo o que faz por necessidade, nós podemos simpatizar com a personagem e nos relacionar de uma maneira diferente. E o mesmo pode acontecer com a nossa relação com os caras do bem, que podemos passar a ver como cegos. Talvez o cara do mal esteja, na verdade, tentando saber o mundo?
“Ei, parem de matar os alieníginas! Eles só estão tentando salvar o planeta! Seus idiotas! Aprendam a compreender os outros!”
E quando o filme termina com os caras do bem se dando conta das reais intenções do(s) cara(s) do mal nós pensamos: “Eu falei! Eu falei! Não falei? NÃO FALEI?”

Ou quando nós sabemos quem o assassino é, nós nos sentimos superiores ao detetive que ainda precisa descobrir quem é.
“O que? Ele não conseguiu descobrir mesmo com TODAS ESSAS PISTAS? Pff!”

Talvez nós gostemos disso porque é isso que queremos nas nossas vidas. Dificuldades são realmente decepcionantes. Se nós tivéssemos o conhecimento que um narrado onisciente tem, nossas vidas seriam tão mais fáceis! E spoilers nos dão esse poder até certo ponto dentro de um certo mundo, então por que não desfrutar?

Outro ponto sobre spoilers. Contexto.
Saber o que acontece é uma coisa. Saber como acontece e todas as consequência é outra coisa completamente diferente. Você pode ter ouvido que o cara do mal é o pai do cara do bem, mas você sabe como essa revelação acontece? Você sabe a situação em que acontece? Como essa informação afeta os envolvidos?
Talvez você saiba porque alguém contou todos os detalhes, mas mesmo assim, o que você imagina, mesmo com todos os detalhes, pode ser bem diferente do que de fato acontece e como você irá perceber quando assistir. Não subestime o poder da criatividade das pessoas.

Então, sério. Spoilers são estraga-prazeres? Eu não diria que todos os spoilers são, mas eu também não nego que spoiler podem ser um grande estraga-prazeres para algumas pessoas, principalmente em grandes quantidades. Mas no geral, eu acho que spoilers não merecem o título de “estraga-prazeres”.

Existe um estudo de 2011 que parece concordar com essa conclusão. E também há alguns sites de notícias falando sobre o assunto pela internet afora (encontrei apenas um em português). Em muitos desses sites, as pessoas expressam sua discordância nos comentários. Como eu não pude ler o estudo eu não tenho muito como argumentar sobre o mesmo, mas eu diria que o gráfico apresentado em praticamente todos os sites não mostra que os spoilers ajudam no nosso apreço pela história. Me parece que os gráficos apontam que os spoilers não tem um efeito negativo, mas dizer que eles ajudam no entretenimento? Eu não tenho tanta certeza (a diferença entre as barras não é tão grande assim).

E em um dos comentários em um dos sites, alguém menciona sobre como os spoilers afetam o modo como apreciamos uma história. Se você souber de algo antes, você vai apreciar a história de uma maneira mais próxima a como o autor/escritor/pessoa que fez o trabalho apreciou (mesmo caso se você estiver relendo). Se você não souber antes, você estará apreciando a obra como um espectador. É um ponto bem interessante, porque, de fato, quem cria a obra está apreciando-a (esperamos) de uma forma completamente diferente porque o autor é….o deus da sua criação! O autor sabe o que cada personagem sabe e muito mais, o autor sabe os seus sentimentos, o autor sabe dos seus desejos e pensamentos mais íntimos, mas o autor também sabe de todo o resto do mundo que o rodeia e, não só isso, o autor manipula, até certo ponto, esse mundo ao redor das personagens. Quando alguém nos contas um spoiler (ou quando descobrimos algo), nós podemos nos aproximar do autor ao nos aproximar de sua onisciência e ao fazê-lo, talvez, nós consigamos entender um pouco do autor, tornando nossa relação com as personagens diferente.

Mas talvez nós devessemos deixar isso apenas para depois, quando já tivermos experimentando o trabalho da forma que o autor queria que nós, leitores, experimentássemos ao adicionar reviravoltas e desenvolvimentos mirabolantes?

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