Tudo está errado e ninguém se importa (parte 1)

Ok, dizer que tudo está errado pode ser um exagero e dizer que ninguém se importa pode ser uma generalização injusta, mas a sociedade está um caos e a maioria das pessoas parece não se importar.

Vamos ver quão perdidos estamos.


Mas antes de começar, aviso que muito do que irei dizer é óbvio. A maioria das pessoas sabem sobre essas coisas e eu realmente vou apenas apontar o óbvio. Mas isso é algo importante a se fazer, apontar o óbvio. Alguém precisa nos dizer o óbvio periodicamente por um simples motivo: Nós somos cegos ao óbvio. Nós sistematicamente falhamos em ver as coisas mais óbvias que nos rodeia. A maioria de nós, pelo menos. A não é um demérito. Eu acredito que isso acontece como um resultado da forma como o nosso cérebro funciona naturalmente. Nosso cérebro é uma das máquinas mais fantástias e contraditórios existentes. Ele tem habilidade e capacidade fantásticas ao mesmo tempo em que é extremamente limitado em outras áreas.

Uma característica fantástica é a habilidade de colocar algumas tarefas no modo automático, liberando alguma capacidade de processamento. Você não precisa se lembrar de respirar, você faz isso automaticamente. Mas só até alguém lhe dizer que você precisa respirar. Você não precisa se lembrar de piscar os olhos, você faz isso automaticamente. Mas só até você começar a usar o PC/tablet/smartphone. Você não precisa pensar para conseguir segurar uma caneta e você não precisa pensar para movimentar as mãos para escrever. Você precisa pensar para escrever (basicamente sobre o que você vai escrever, a não ser que você não se importe em escrever qualquer porcaria, como normalmente fazemos quando estamos quase dormindo nas aulas chatas), mas você não precisa ficar pensando constantemente em fazer um movimento circular toda vez que escreve um “o” ou um movimento perpendicular toda vez que escreve um “i”. Você já sabe como fazer a parte mecânica então seu cérebro liga o modo automático para lidar com a parte chata, liberando capacidade de processamento para lidar com a parte mais divertida que é pensar no que escrever.

Isso também está relacionado à habilidade do nosso cérebro de filtrar as coisas inúteis e as constantes. Se você ficar em um ambiente com um barulho constante, mas num nível não ensurdecedor, é provável que depois de um tempo esse ruído desapareça. Certo, ele não desaparece, é apenas o seu cérebro que parou de processá-lo. Foque sua visão em um objeto e o seu cérebro passará a não mais processar o restante ao redor. São coisas que acontecem automaticamente. As constante são automaticamente filtradas pelo cérebro para ter mais energia para prestar atenção em coisas mais importante, em coisas que estão mudando, já que as constante, bem, são constantes, não há expectativas de que elas irão mudar drasticamente em um curto espaço de tempo. E o óbvio é uma constante. Portanto nosso cérebro filtra e acabamos prestando menos atenção do que deveríamos. Algumas vezes, mesmo quando o óbvio se transforma em algo excêntrico nós acabamos não notando porque nosso cérebro não atualizou o filtro porque a transição do óbvio não foi abrupta o suficiente para nos chamar a atenção. Essa é uma razão pela qual é importante que alguém nos diga o óbvio de vez em quando, para servir como estímulo para prestarmos atenção e verificar se o óbvio já não virou excêntrico demais (o que eu acredito que sim, mas há poucas pessoas dizendo o óbvio então ainda não notamos). Outro motivo é que o seu óbvio pode não ser o meu óbvio e vice e versa, então trocarmos nossos óbvios é uma boa forma de fazer um teste de realidade. Então vamos lá.

Ok, todos nós queremos mudanças. Queremos uma vida melhor. Queremos uma casa melhor. Queremos um país melhor. Queremos um governo melhor. Queremos um sistema de segurança melhor. Queremos um novo sistema de saúde. Queremos uma democracia melhor. Queremos ser ouvidos, pra variar.

Nós queremos uma vida melhor, mesmo que não saibamos o que raios é uma vida melhor. Mais dinheiro? Vários estudos mostraram que dinheiro, apesar de fazer uma diferença na felicidade, não é o fator mais crucial. Talvez uma vida melhor não seja uma vida mais feliz? Talvez uma vida mais fácil? Talvez nós queiramos uma vida em que não precisemos trabalhar para ganhar dinheiro? Queremos uma vida onde podemos viajar o quanto quisermos e fazer o que quisermos sem nenhuma preocupação? Parece bom, não? Eu não acho que alguém reclamaria de uma vida assim. Eu não iria. Ok, mas nós queremos uma vida assim apenas para nós? Nós queremos compartilhar essa vida, certo? Afinal, nós somos uma espécia social. Nós vivemos em sociedade, vivemos em grupos, nós precisamos de contato social. Mas se apenas algumas pessoas pudessem viver essa vida parecida com a sua, você se sentiria em risco e iria se preocupar com quem você está se relacionando. Talvez os seus “amigos” estejam apenas se aproximando para parasitá-lo? Talvez o/a “namorado/a” não tenha real interesse em você, mas sim no que você tem a oferecer de material? Então você poderia acabar desejando que você não tivesse toda essa facilidade ou que todos os seus amigos tivessem a oportunidade de ter uma vida igual a sua. Bem, se todos pudessem viver uma vida assim, quão bem o mundo funcionaria? Talvez melhor do que imaginemos. Eu acredito que existem pessoas que gostam do seu trabalho e que continuam mesmo depois de ganhar dinheiro suficiente, apenas porque eles realmente gostam. Mas pense no seguinte, estamos preparados para lidar com uma relação onde todas as partes possuem absoluta liberdade? Quem sabe? Se todos podem fazer o que quiserem, estaríamos dispostos a tentar equilibrar os desejos de todos e chegar em um acordo comum? Ou estaríamos mais propensos a simplesmente ignorar qualquer um com uma opinião divergente? Questão complicada. Uma resposta que sirva para todos provavelmente não existe, mas realmente nos importamos com isso? Realmente pensamos sobre isso? Não, mas como é uma questão sobre uma realidade tão improvável, não é um problema, certo?

Nós queremos um sistema de saúde melhor e mais justo, embora não tenhamos idéia do que seja “melhor e mais justo”. Gratuito para todos é “melhor e mais justo”? Cada um pagando o seu é “melhor e mais justo”? O mercado sabe qual sistema é “melhor e mais justo”? O Estado sabe qual sistema é “melhor e mais justo”? Bem, por acaso nós sabemos qual sistema é “melhor e mais justo”? Eu não acho que sabemos, e adivinha só? Tanto o “mercado” quanto o “Estado” são parte de nós. Se “nós” não sabemos, por que raios uma parte de nós deveria saber? Mesmo assim, nós acreditamos que algum deles sabe qual é a melhor opção. Sério…

Nós queremos uma democracia melhor, uma que seja mais justa e que de fato escute a todos. Mas nós sequer sabemos ouvir nossos vizinhos e não conseguimos ver quão falho o sistema democrático é. Um sistema que obedece 51% da população e ignora 49% é o melhor sistema que conseguimos bolar? Um sistema que obedece 70% da população e ignora os outros 30% é o melhor que conseguimos bolar? Sério? Ignorar a minoria, independente de quão grande ela é, não me parece ser muito justo.

Nós queremos mudanças. Nós queremos mudanças que melhorem tudo. Mesmo assim, nós não queremos mudar. Nós queremos mudanças sem ter que mudar. Mudar é muito trabalhoso. Mudar requer esforço e esforçar significa sair do estado de menor energia para ir para um estado de maior energia, o que vai contra a tendência natural de qualquer sistema (alguns poderiam argumentar que é por isso que odiamos sair da cama, preferindo ficar dormindo). Mas não só isso, mudar significa sair do conforto do conhecido e aventurar no desconfortante desconhecido. Nós não sabemos lidar com o que não conhecemos. Especialmente quando estamos falando do desconhecido no longo prazo. E parece natural sermos ruins nisso. Existem tantos fatores que estão completamente fora de nosso controle que certamente não temos a capacidade de prever todas as possibilidades, então temos que trabalhar com essa limitação imposta pela capacidade do nosso cérebro. O problema é como lidamos com isso. Os meios mais comuns são ignorando o longo prazo ou considerando que no longo prazo tudo se mantém (pergunte aos economista, é isso que irão responder). É difícil lidar com mudanças. Eu não acho que nós realmente conseguimos nos acostumar com mudanças constantes. A estabilidade é muito mais atraente para desistirmos dela em troca da instabilidade e optar pela estabilidade é provavelmente a maneira mais certa de nos mantermos no estamos de menor energia. Algumas pessoas aceitam a mudança? Claro, é por isso que a humanidade progrediu tanto durante sua existência. Mas o grupo responsável por essas mudanças são a minoria. A maioria de nós está na maioria que adora o estado de menor energia, assim como o resto do universo.

Em outras palavras, nós queremos que tudo mude, exceto nós mesmos. Nós queremos que o mundo nos mude. Mas todos querem que isso e todos esperam que isso aconteça. Bom, adivinha? Se o mundo espera que o mundo mude, o mundo não irá mudar tão cedo. É difícil de aceitar, não é? Esse é o momento que começamos a odiar a inércia e começamos a xingar Isaac Newton, como se ele fosse o responsável por isso. Ah, quanta ingenuidade. Então nós nos damos conta de que existem pessoas (muitas vezes chamadas de “sonhadoras”, “loucas” e até mesmo “idiotas”) que realmente se dão o trabalho de tentar mudar o mundo e fazer a diferença enquanto o resto de nós simplesmente se acomoda e espera que eles realizem as mudanças que todos queremos ou nós simplesmente lutamos contra essas pessoas porque elas são diferentes de nós. Ah, a contradição. Mas nós não nos importamos. Certo?

Algumas pessoas mais inteligentes notaram essa situação e decidiram ganhar dinheiro com isso. Como? Nos vendendo o óbvio. Sim, o óbvio do parágrafo anterior, “se o mundo esperar que o mundo mude, o mundo não irá mudar tão cedo”, mas troque “mundo” por “você”. Sim, você não mudará apenas esperando. Então vá e se transforme. Se você mudar a si mesmo e suas próprias perspectivas, o mundo também mudará! Meu deus, muito obrigado, Capitão Óbvio!

2 thoughts on “Tudo está errado e ninguém se importa (parte 1)

  1. Pingback: Everything is wrong and nobody cares (part 1) | EDSM

  2. Thomas Conti

    Post genial, Japonês! Muito interessante sua digressão de porque o óbvio nos passa desapercebido, adicionou umas ideias bizarras na minha cabeça!

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