Tudo está errado e ninguém se importa (Parte 2)



O vídeo acima diz muito sobre a sociedade. Muito mesmo. São tantos tópicos que merecem uma digressão própria. São tantos tópicos que poderiam gerar livros. Mas vamos por partes.

O vídeo mostra algo que acontece, em certa medida, na nossa sociedade. E isso é óbvio. Se você conseguiu rir do vídeo é provavelmente porque você identificou algo familiar nele.

Embora a referência ao iPhone da Apple seja óbvia, o vídeo óbviamente não é direcionado apenas aos proprietários de iPhones ou à indúsitra de smartphones no geral. A sociedade é desse jeito. Como um todo. Nas mais diferentes frentes (em diferentes níveis, claro). Eu não vejo esse vídeo como sendo um ataque direto a apenas um grupo da sociedade.

A descrição do vídeo diz:

“Carros de luxo com motores possantes para conduzirmos em estradas com severas restrições de velocidade, TVs a cabo que nos permitem pagar para assistir a todo tipo de esporte, tudo do conforto do sofá e, claro, telefones celulares hiper caros que fazem quase tudo exceto uma ligação telefônica decente”.
(…)
“Não leve a mensagem muito a sério. Este é apenas um vídeo promocional que nós fizemos para rirmos de nós mesmo. Todos temos um i-diot dentro de nós, e isso é divertido!”

A mensagem é clara para mim, é sobre o consumismo irracional. E a mensagem é igualmente clara no vídeo. Nós queremos porque todos querem. Nós compramos porque todos compram. Nós pensamos que precisamos porque todo mundo já tem. Nós somos cegos para o quão ridículo é porque ninguém se atreve a apontar o quão ridículo é. Aqueles que o fazem são ignorados ou não tem uma voz forte o suficiente para vencer a vigorosa voz da sociedade que foi convencida por outra voz igualmente vigorosa, a do marketing. E assim as empresas podem nos vender seus produtos com uma data de validade escondida e nós nem nos importaremos porque um novo produto estará disponível até essa data.

Mas eu não estou aqui para falar sobre o consumismo desenfreado. Eu não estou aqui para pregar sobre como deveríamos consumir de maneira mais consciente e tudo mais. Eu não estou aqui para tentar destruir a economia chinesa (porque não seria algo bom a se fazer). Eu estou aqui para digressionar sobre uma outra mensagem que me parece bem clara no vídeo: Nosso desejo (ou necessidade?) de sermos iguais (e como isso nos torna completamente retardados, mas essa parte eu não vou comentar. Eu não preciso, sinceramente. Apenas olhe ao redor.)

Nós vivemos em uma sociedade, isso é um fato. Somos naturalmente sociais? Eu não sei. Aristóteles pensava que sim. Ou as pessoas fizeram com que ele pensasse que sim, já que essa frase é atribuída à ele:

“O homem é por natureza um animal social; um indivíduo que é naturalmente, e não acidentalmente, não-social está fora da nossa percepção ou é mais do que um humano. Sociedade é algo que precede o indivíduo. Qualquer um que não consiga levar uma vida comum ou é auto-suficiente para não precisar, e portanto não fazendo parte da sociedade, ou é uma besta ou um deus.”

Essa passagem é atribuída ao seu livro Politics, mas eu não encontrei lá. Talvez seja alguma versão de tradução? Enfim, de acordo com essa passagem, se você for não-social, se você não fizer parte da sociedade, você é ou uma besta ou um deus. Mas não há instruções dizendo como determinamos qual dos dois (se for livre escolha, ser um deus parece mais interessante). Independente, você não é um humano. É um negócio radical. Alguém recluso é uma besta? Ou um deus? Sério? Será que a ocitocina pode realmente ser a responsável pela criação de deuses?

Claro que alguns pontos precisam ser clarificados. O que se quer dizer com “naturalmente”? Se ficamos decepcionados com a sociedade e decidimos virar hermitões, isso é um processo “natural”? Ou estamos apenas lidando com as pessoas que possuem os chamados “distúrbios mentais” como os autistas, que “parecem viver num mundo próprio“? (acho que a citação sobre o autismo diz muito sobre a visão da sociedade)

Novamente, dissecar a citação não é o meu objetivo. Mas eu acredito que nós acreditamos na citação. E agimos de acordo. Ostracizamos aqueles que são diferentes. Isolamos aqueles com quem não nos identificamos. Nós os xingamos. Nos juntamos contra eles. Nós simplesmente não os aceitamos e os tratamos como não-humanos. Ok, nem todos fazem isso, mas existem aqueles que aprenderam a não fazer e que podem ter feito antes de aprenderem essa lição. (O estudo em si, caso você tenha acesso e uma entrevista com a pesquisadora.)

Não queremos estar no time dos rejeitados, queremos estar no time dos que rejeitam. Nós vemos o sofrimento dos rejeitados e nos divertimos com isso ou pelo menos não repudiamos tanto a ponto de interferirmos. Não queremos ser a fonte da diversão, queremos ser os recipientes dela. Então tentamos fazer parte da sociedade para que possamos desfrutar de seus prazeres. E assim começamos nossa jornada para sermos aceitos pela sociedade, porque a sociedade precede o indivíduo.

Vamos à escola. Aprendemos um monte de coisas que são ensinadas desde tempos remotos. Aprendemos a seguir regras. Aprendemos sobre como a sociedade funciona (em tese). Aprendemos o que é bom. Aprendemos o que é ruim. Tudo nos é transmitido perfeitamente. Preto no branco, preto no branco. E nós experimentados o que aprendemos sobre a sociedade em primeira-mão ali mesmo, na escola. Fique de recuperação e você é diferente, porque “o normal” não é ficar de recuperação. Repita um ano e você é diferente, porque você está atrasado em relação às “pessoas normais”. Ande fora da linha e você é o problema, porque as “pessoas normais” andam na linha. Claro que isso também vale para o outro lado. Seja um prodígio e você será diferente, porque o “normal” é não conseguir fazer algo com tanta facilidade assim.

Depois que terminamos a escola nós podemos escolher (a primeira vez!). Podemos ou continuar para a universidade ou irmos procurar um emprego. Mas essa escolha não é realmente uma escolha para muitos que terminaram o colegial. Sejamos francos, o que alguém pode fazer só com o nível médio? O padrão é pelo menos ter um diploma. Se você decidir ir procurar um emprego assim que terminar o colegial, você não é “normal”. Ou você é alguém que não conseguiu ser aceito em uma universidade ou alguém que não aprendeu os valores da sociedade e que irá virar um peso morto no futuro. Pessoas “normais” vão para a universidade, mesmo que elas sofram para entrar, mesmo que elas tenham que ir para universidades piores. A “norma” é ter um diploma. É isso que nos ensinam na escola.

E convenhamos, dizer que você só consegue um emprego decente com um diploma pode ser verdade em certa medida, mas dizer que você não consegue ter uma vida decente só com um diploma de nível médio é uma das merdas que insistem em nos ensinar para que possamos manter tudo normal. Ops, eu disse um emprego decente? Não, eu deveria ter dito um emprego “de verdade”. De que forma podemos conseguir em emprego de verdade se não com um diploma na mão, certo? E de que forma poderemos ter uma vida decente sem ter um emprego de verdade?

Depois da faculdade, nos deparamos, novamente, com mais escolhas. Podemos continuar os estudos ou ir trabalhar. Podemos escolher entre trabalhar para alguém, para o governo ou começar uma empresa. Olha só quantas opções! Quanto mais avançamos, mais escolhas temos e menos tempo temos para seguir outro caminho caso façamos a escolha errada. Irônico.

Ah, claro, jovens não sabem fazer escolhas então não podemos deixar que tomem tantas decisões. Não só não sabem fazê-lo, como também são imaturos para algumas decisões, então nós escolhemos por eles. Sim, deixe que aprendam a escolher vendo os outros escolhendo para eles ao invés de deixar que eles escolham por conta. Ótima escolha!

Mas esta é apenas uma faceta. Temos também outra faceta mostrada no vídeo, onde tentamos fazer parte do grupo através de bens materiais. Queremos o que está bombando. Queremos o que está na moda. Então partimos novamente em busca da moda que podemos fazer parte. Um carro novo? Um smartphone novo? Um livro novo? Uma marca nova? Me diga o que é para que eu possa checar se meu banco me empresta dinheiro (a taxas de juros justas) para me juntar ao clube. Porque esse é o preço para ser parte da sociedade. Esse é o preço para não ser uma besta ou um deus. Ser um deus não é tão legal quanto ser parte da sociedade.

É importante notar que a sociedade também avalia o comportamento (no sentido amplo). Se você não troca o seu smartphone todo ano, você é diferente. Se você não troca o seu carro a cada dois anos, você é diferente. Se a sua TV não tem pelo menos 32 polegadas, você é diferente (sim, “diferente” aqui é só um sinônimo para “pobre”).
Se você não gosta daquela música você é diferente. Se você não fica indignado com aquele vídeo você é diferente. Se você não tem uma conta naquele site, você é diferente (e aqui, “diferente” é um sinônimo de “estranho” no sentido pejorativo).

E assim vamos, influenciados por todas essas ameaças de “ser diferente”, tentando nos mesclar com a sociedade. Buscamos a homogeneidade. Todos queremos ter nossas próprias casas, o carro mais moderno, o smartphone mais moderno, um emprego das 9-17 que nos deixa o fim de semana livres, quando vamos para o shopping e encontramos toda aquela gente que tem casa própria, o carro mais moderno, o smartphone mais moderno e um emprego das 9-17 que deixa o fim de semana livre, quando vão para o shopping.

É estranho como existe essa pressão constante para “ser igual aos outros”. Talvez seja parte da nossa natureza. Talvez seja realmente porque abominamos o diferente. Então tentamos ser iguais. Tentamos copiar o que os outros estão fazendo. Para sermos aceitos no grupo. Para sermos aceitos na sociedade. E nós ensinamos (ou deveria dizer, pregamos?) isso para todo mundo. As crianças aprendem na escola, os adultos aprendem no trabalho, as famílias aprendem assistindo TV.

E assim buscamos o iDiot mais moderno. Porque todo mundo está. Mas então…..quem cria os iDiots? Quem cria a moda?

Sim, aqueles que são diferentes. Irônico, não?

Eu poderia parar por aqui, mas se o fizesse, iria parecer que estou dizendo que os diferentes são superiores e os outros são apenas ovelhas acéfalas que apenas seguem, o que óbviamente não é verdade. Alguns sequer conseguem fazer isso.

Ok, brincadeiras à parte, o ponto aqui não é sobre ser diferente ou ser igual. Seguir ou opor à moda. Criar ou destruí-la. O ponto principal é como nós queremos ser iguais aos outros, como nós seguimos regras e nos esforçamos para preencher certos requisitos para sermos aceitos no grupo onde todos os que já fazem parte seguem as mesmas regras e preencheram os mesmos requisitos. E depois que entramos, somos ditos que “devemos pensar fora da caixa”. Que “não precisamos de mais do mesmo”. Que “o individualismo é importante”. Que “somos todos diferentes”.

Merda, péssimas notícias. Crescemos sendo educados com a mentalidade de sermos um bom exemplo, de fazermos parte da sociedade, de sermos bons cidadãos e toda essa merda que está intimamente ligada com seguir as regras, seguir o mesmo caminho que todos os outros, repetir o que todos os outros dizem (o que normalmente significa ir para a escola sem repetir de ano, conseguir um diploma de nível superior e encontrar um emprego de verdade e honesto) para depois sermos deparados com a necessidade de ser diferente?

Talvez as coisas estejam mudando. Mas a contradição ainda está presente, talvez mais em alguns países do que em outros, mas ainda está aí. Então, o que nós queremos? Seguir o fluxo ou ser diferente? Eu digo, de verdade?

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